Hidrossanitária

NOVO ACORDO DE COOPERAÇÃO TÉCNICA PREVÊ PARTICIPAÇÃO DAS EMPRESAS


ENERGIA – O PODER DOS RAIOS SOLARES

Com o objetivo de fomentar o desenvolvimento científico e tecnológico para aproveitamento da energia solar no País, em especial a heliotérmica, que usa concentradores solares para acionar turbinas e gerar eletricidade, os ministérios da Ciência e Tecnologia (MCT) e de Minas e Energia firmaram em dezembro último um acordo de cooperação técnica.

A iniciativa prevê o acompanhamento de um conjunto de atividades, compartilhamento de informações, fomento para a elaboração de plataforma de pesquisas e demonstrações, capa¬citação técnica, parcerias nacionais e internacionais e a criação de um comitê gestor. “A ideia é reunir a comunidade acadêmica, centros de pesquisas e empresas para participarem do desenvolvimento da tecnologia solar nacional”, afirmou Eduardo Soriano, coordenador de Tecnologia e Inovação em Energia do MCT.

Segundo ele, o primeiro projeto alavancado pelo acordo será a implementação da planta piloto de geração heliotérmica no semiárido de Pernambuco, com capacidade de 1MW (megawatt), suficiente para atender 10 mil pessoas. “O princípio de funcionamento desse tipo de usina é similar ao de uma termelétrica, a diferença é que o calor que alimenta as turbinas é gerado pela luz do sol”, explicou. Com aporte inicial de R$ 23 milhões, investidos pelo CT-Energ (Fundo Setorial de Energia) e pela Sectma (Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente), a previsão é que seja concluída em três anos.

A usina conta com vários parceiros, como o Cepel (Centro de Pesquisas de Energia Elétrica), a Chesf (Companhia Hidroelétrica do São Francisco), a UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e o Cetene (Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste).

Ainda muito caro no Brasil, o uso desse tipo de fonte limita-se frequentemente aos aquecedores, que, através de placas coletoras, absorvem a radiação e transferem o calor do sol para a água que circula no interior de suas tubulações, chegando a um reservatório térmico que armazena o líquido aquecido para consumo posterior. O próprio governo federal incentiva a adoção dessa tecnologia no programa habitacional “Minha casa, minha vida”, que prevê a construção de 1 milhão de novas moradias.

Já a aplicação elétrica – que pode ser feita através do efeito fotovoltaico, no qual a luz do sol incide sobre os painéis que, por meio de um processo físico, geram eletricidade ou através de lentes e espelhos que concentram a energia solar num pequeno feixe e alimentam turbinas a vapor – é praticamente inexistente no País.

“As tecnologias disponíveis no mercado são novas e caras e não con¬seguem competir com as fontes tradicionais. O custo por quilowatt gerado numa usina solar é muito mais alto que qualquer outra fonte, cerca de US$ 4 mil, na melhor das hipóteses. Já na produção eólica esse valor gira em torno de US$ 2 mil e na hidráulica é em média US$ 1.500”, compara Sérgio Colle, coordenador do Lepten (Labo¬ratório de Engenharia de Processos de Conversão e Tecnologia de Energia) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Além do preço, outro impasse é que a produção de energia elétrica solar exige grandes áreas. “As primeiras experiências do processo fotovoltaico estão acontecendo em locais sem ocupação, como é o caso dos desertos da Califórnia”, menciona Carlos Monte, coordenador técnico e consultor do projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”, iniciativa da FNE (Federação Nacional dos Engenheiros).

Para Rafael Kelman, diretor da PSR, consultoria especializada na área de energia, a capacidade é outro aspecto que deve ser levado em consideração. Conforme relata, exce¬tuando-se a experiência californiana de mais de 350MW, hoje os maiores projetos do mundo são menores que 100MW, com produção equivalente à de uma pequena central hidrelétrica com 30MW.

Marcelo Cavalcanti, coordenador do curso de Engenharia Elétrica da UFPE, acredita que é fundamental o governo incentivar o uso da energia solar através de subsídios para que a tecnologia possa se difundir e baratear o custo, como tem sido feito na Alemanha e na Espanha, que estão investindo pesado na massificação. Já Monte pondera que o ideal é acompanhar as pesquisas e esperar os resultados, que só virão no longo prazo. “É uma tecnologia de futuro que será implantada gradualmente”, diz.

Um aspecto positivo, conforme Kelman, é a sazonalidade no Brasil. “Como somos um país tropical, a diferença de insolação entre o verão e o inverno é pequena. Estudei a radiação no Rio de Janeiro e concluí que a geração solar fotovoltaica é somente 20% menor no mês com menos produção. Essa diferença seria facilmente aplainada com as usinas hidrelétricas”, observa o especialista.


Fonte -Fonte: Lucélia Barbosa / Jornal do Engenheiro