ESPECIALISTAS APONTAM NECESSIDADE DE ADOTAR MEDIDAS PARA EVITAR DESABASTECIMENTO NO FUTURO


Diante da maior estiagem dos últimos 84 anos e em meio à maior crise de abastecimento da história, o Rio celebra o Dia Mundial da Água torcendo por momentos melhores. A pouco mais de 500 dias da abertura dos Jogos Olímpicos, especialistas explicam como o estado, conhecido pela abundância de água, chegou ao nível de alerta em relação ao desabastecimento, indicam alternativas de reaproveitamento hídrico e apontam medidas para atenuar impactos futuros.

“A situação vivida no Rio é diferente da de São Paulo, já que extraímos água do manancial do Paraíba do Sul, enquanto o estado vizinho aposta nos reservatórios, que permanecem baixos”, afirma o diretor de produção da Cedae, Edes Fernandes. De fato, não basta apelar para que São Pedro envie chuvas torrenciais. No Rio — estado que foge à regra nacional, onde mais de 60% do consumo é doméstico —, o uso responsável por cidadãos e indústrias é fundamental.

Embora ainda não existam incentivos fiscais a empresas que utilizem água de reúso, é crescente a consciência corporativa. “A água tratada em estações de esgoto não é potável, mas deve ser utilizada na construção civil e indústrias, deixando o estado potável apenas para o consumo humano”, ressalta Edes, que cita o uso e larga escala no Simperj e na Reduc.
Já o coordenador do curso de Engenharia Ambiental da USP, Alex Souza Silva, ressalta o número de residências sem saneamento básico, o que acentua o assoreamento de rios e polui alguns dos palcos das competições da Olimpíada de 2016: “O despejo de matéria orgânica nas águas decorre dos processos de ocupação desordenada e favelização.”

Apesar da garantia de expansão do serviço, o panorama da Cedae para a Baía de Guanabara não é dos melhores, já que ecobarreiras e ecobarcos devem proteger os atletas de detritos maiores. Disputado pelos estados do Sudeste, o potencial do Sistema Hidráulico do Paraíba do Sul passa por uma fase de otimização.

Segundo a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, manobras feitas já garantiram o armazenamento de mais de 700 milhões de metros cúbicos de água desde maio de 2014, o que resguardaria o estado em futuros períodos de seca. A Cedae aposta na construção da estação Novo Guandu, que deve ser finalizada em até quatro anos. Com a elevatória, a produção de água tratada aumentaria em dez mil litros por segundo.

Reúso e dessalinação são saídas

Tecnologia desenvolvida pela Coppe, centro de pesquisa em engenharia da UFRJ, pode ser a solução contra a pior crise hídrica enfrentada pelo estado. O sistema utiliza membranas, que funcionam como um superfiltro, para purificar águas poluídas e retirar sais da água do mar. O modelo que já é usado nos países do Oriente Médio poderá baixar em até 70% a conta da água. Hoje se gasta, em média, R$ 30 por metro cúbico de água, com o reúso, o valor cai para R$ 8 pelo mesmo volume. Estados Unidos e China já adotam o sistema.
No Rio, a tecnologia da Coppe já despertou a atenção de indústrias para utilização nos sistemas de refrigeração. Responsável pelo Laboratório de Processos de Separação com Membranas do Programa de Engenharia Química, o professor Cristiano Borges espera que o governo do estado se interesse em usar o sistema disponível pela Coppe para atender à população fluminense, em vez de importar tecnologia de outros países. “Só há duas soluções para a escassez da água: o reúso que esbarra no preconceito e a dessalinização da água do mar”, diz Borges.

Há 50 anos, a Estação do Guandu

Hugo de Mattos, coordenador das obras de criação da Estação de Tratamento do Guandu, há 50 anos, lembra da árdua tarefa que foi fazer com que o abastecimento chegasse a todas as regiões. “Na Zona Sul, o abastecimento não era pleno. Nas zonas Norte e Oeste, moradores ficavam semanas sem água. “A saída foi fazer um túnel subterrâneo de grandes dimensões que ligava Nova Iguaçu até o Jardim Botânico. De lá, outro subtrecho cortava a Zona Norte com água do Rio Paraíba do Sul”, recorda.
Para ele, as atenções devem ser voltadas para bairros em pontas de linha, como Barra da Tijuca e Recreio. No entanto, ele descarta o tratamento da água de pequenos rios da região. “Seria caro e não daria vazão. A solução passa por expandir o sistema já existente”, conclui.

O desenvolvimento de novas formas de captação de energia em larga escala também devem ser postas em discussão, afirma Alex Souza e Silva. “Não podemos desconsiderar um momento de escassez máxima, em que o consumo e a energia ficariam prejudicados pela falta d’água”, ressalta. Para a conscientização do uso responsável da água, a Cedae recebe por ano mais de 14 mil crianças na estação de Tratamento do Rio Guandu, onde elas acompanham todas as etapas do processo de tratamento e aprendem a importância de preservar a água.


Fonte -Fonte: O dia