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Retomada de leilões de petróleo atrai investidores; produção pode triplicar em uma década


RIO – Além de incluir novas áreas para a exploração de petróleo e gás nos leilões que serão realizados nos próximos anos, o governo quer acelerar as licitações atualmente em curso para aumentar os investimentos no setor. Segundo estimativas da Agência Nacional de Petróleo (ANP) e da consultoria McKinsey, o país deve triplicar a produção diária e dobrar o volume de reservadas provadas na próxima década.

Em paralelo aos avanços no pré-sal, os especialistas citam ainda como indutores desse crescimento o novo plano de gás natural do governo e as descobertas recentes em torno da Bacia de Sergipe-Alagoas, que pode viabilizar um polo de desenvolvimento no Nordeste.

Essa nova fase do setor tem início já neste ano, quando o segmento de óleo e gás deve alcançar R$ 24 bilhões em investimentos, alta de 20% sobre 2018, calcula o Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP). Para o ano que vem, a expectativa é chegar a R$ 30 bilhões.

O megaleilão, que deve gerar mais de R$ 100 bilhões para o governo, marcado para outubro, impulsiona o otimismo da indústria do petróleo no país. A Petrobras tem licitações em andamento para projetos que entram em operação a partir de 2022.

Empresas fornecedoras já fazem aportes e petroleiras estrangeiras ampliam operações no país. A Qatar Petroleum, por exemplo, acaba de abrir um escritório no Rio.

— O investidor vem para onde vê rentabilidade. Hoje, já vemos demanda na atividade de sísmica e de serviços para o setor em geral, com a encomenda de equipamentos. Outro reflexo é que, quando uma gigante investe no Brasil, atrai seus fornecedores locais, gerando mais empregos e negócios aqui — diz Anderson Dutra, especialista da consultoria KPMG.

— Temos recebido consultas de empresas querendo investir no país, buscando informações sobre ativos e tirando dúvidas sobre tributação. Temos doze projetos em due diligence (análise de viabilidade de um negócio). O plano do gás é outro fator. Fomos a uma conferência no Texas e tivemos que fazer um road show (série de apresentações) para mostrar os ativos, tamanho o interesse.

Produção ainda é desafio

O primeiro passo para a retomada do setor começou com a reativação do calendário de leilões de petróleo, a partir de 2017, seguido da mudança das regras de conteúdo local e a extensão do regime tributário especial por mais de 20 anos, atesta Dutra.

Assim, com mais previsibilidade, mais petroleiras estrangeiras passaram a investir no Brasil. Estão entre elas a Exxon, além de Wintershall, Murphy, Karoon, Equinor e Qatar Petroleum.

Entre os fornecedores, a Equinix, empresa americana de tecnologia para o setor, decidiu dobrar a capacidade de armazenamento de seu data center em Del Castilho, na Zona Norte do Rio, para atender, sobretudo, a empresas do setor de óleo e gás, conta Eduardo Carvalho, presidente da companhia.

Somente com as encomendas no setor de sísmica e equipamentos, além de novas plataformas, é esperada a geração de cem mil vagas de trabalho este ano, diz o IBP.

A perspectiva de contratações, contudo, está longe de recuperar os 400 mil empregos perdidos pelo setor ao longo dos últimos anos, a reboque dos efeitos da Operação Lava-Jato, que levou a Petrobras a reduzir investimentos, e da queda vertiginosa do preço do barril do petróleo no mercado internacional, retraindo toda a cadeia dessa indústria no Brasil. Agora, a estatal vende ativos para concentrar investimentos na exploração e produção de petróleo.

Mesmo na esteira do megaleilão marcado para outubro e com o otimismo crescente em relação à retomada do setor, revezes persistem. Na semana passada, a Petrobras anunciou queda de 3% na produção de petróleo no primeiro semestre .

Com isso, revisou para baixo sua meta de produção para o ano, de 2,8 milhões de barris de óleo equivalente por dia para 2,7 milhões, com variação de 2,5% para mais ou para menos. A estatal tem focado na venda de ativos para poder concentrar investimentos na produção.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem pressionado pela aceleração da exploração de petróleo via iniciativa privada. Para ele, com a transição para matrizes de energias renováveis globalmente, em duas ou três décadas, o óleo não terá mais valor.

Manuel Fernandes, sócio da KPMG, confirma que a preocupação das companhias do setor hoje é explorar as reservas com agilidade enquanto o petróleo ainda têm valor econômico.

Marcos Bonfim, líder de Óleo & Gás da consultoria EY, lembra que, se não fossem seis anos sem leilões na década passada, o país estaria produzindo hoje cerca de 5,5 milhões de barris de petróleo por dia, em vez de 3,1 milhões no total.

 

Fonte: O Globo